A "Sobrinhos Solutions" é um Perigo?
- Leonardo Brelaz

- 30 de jan. de 2025
- 4 min de leitura
(Texto: Leonardo Brelaz, 13 Dezembro 2019) Quem nunca ouviu a famosa frase: "Meu sobrinho faz mais barato"?
Essa expressão pode vir acompanhada de outras igualmente conhecidas, como: "Vou pensar e te retorno", "Você faz e eu te indico", "Mas é algo tão simples, você faz isso rapidinho", "Tão caro, fulano faz pela metade do preço?", "Eu já pesquisei no Google, só não faço porque estou sem tempo", entre outras.
Constantemente me deparo com críticas ferozes aos chamados "sobrinhos", que nada mais são do que amadores ou curiosos, com pouco conhecimento sobre uma determinada área, serviço ou ferramenta. São, muitas vezes, vítimas do #Efeito_Dunning_Kruger, ignorando suas limitações e se auto-intitulando especialistas, enquanto entregam resultados de baixa qualidade. Isso cria uma concorrência desleal, desvalorizando o mercado com preços impossíveis de sustentar, que não cobrem nem as horas trabalhadas.
Embora a incidência seja maior entre designers ou fotógrafos, é possível encontrar, em todos os segmentos, profissionais que não investiram o tempo ou dinheiro necessários para adquirir o embasamento adequado para exercer sua função. Por isso, o tema está sempre em pauta, gerando polêmicas com centenas de comentários, na maioria dos casos, de profissionais se sentindo lesados e indignados com essa prática.
A Era Digital e a Autossuficiência
Hoje em dia, na era digital, a maioria dos usuários se julga capacitada. 80% querem ser PhDs em vários assuntos. Após uma breve busca no Google, muitos se sentem aptos a tecer opiniões, críticas e até dar diagnósticos médicos. No Design, não seria diferente: é uma função "tão simples" que qualquer sobrinho parece capaz de executar com maestria, em troca de elogios ou indicações no grupo da família.
Refletindo sobre os "Sobrinhos"
Porém, vamos analisar o outro lado da moeda: qual seria a real intenção dos "sobrinhos"? Eles são realmente os vilões da história, responsáveis pelos insucessos profissionais da concorrência? Como dizia Lao-Tsé: "Por mais longa que seja a jornada, ela começa com o primeiro passo." Isso significa que, independentemente do porte da empresa, todos os grandes profissionais começaram de algum lugar, também foram iniciantes um dia. Será justo criticar alguém que está começando uma carreira?
Sabemos o quanto é difícil iniciar uma trajetória profissional. Poucos contratantes oferecem oportunidades a quem não tem experiência ou estão dispostos a ensinar. Também sabemos que toda profissão tem seus bons e maus frutos. Há iniciantes determinados, bem-intencionados, em busca de crescimento e conhecimento. Mas também há aqueles que, independentemente de serem iniciantes ou não, acabam prejudicando a categoria.
A Regra do Exército Canadense
“Entre o mapa e o terreno, escolha o terreno.” Essa regra antiga do exército canadense nos lembra que o caminho só é realmente descoberto quando o percorremos.
Quando a Experiência Faz Diferença?
É comum encontrar diversos profissionais trabalhando em estúdios, gráficas e bureaus, produzindo material "CTRL + C / CTRL + V", alterando apenas alguns dados em mockups e templates. O foco está no lucro, com a rotatividade ou venda de material impresso/digital com “criação grátis”. Isso é acompanhado pela falta de liberdade criativa, onde os clientes frequentemente destroem projetos valiosos, optando por soluções prontas, os "cases com padrões existentes". O popular "arroz com feijão" do dia a dia.
Design como Solução de Problemas
O designer também é um solucionador de problemas, um facilitador que desenha soluções. Como disse Steve Jobs: "As pessoas não sabem o que querem, até mostrarmos a elas."
Os criativos têm a seu favor uma ferramenta poderosa chamada portfólio, onde transformam frases e adjetivos diagramados em currículo em lindas obras de arte, peças publicitárias, ilustrações, etc. Com isso, suas capacidades e qualidades tornam-se visíveis; é possível quantificar o talento e o conhecimento através do domínio de softwares de edição e ferramentas. Muitos, porém, reclamam da dificuldade em montar seus portfólios, seja pela alta exigência pessoal, falta de tempo ou liberdade criativa.
O Artista e a Arte
O artista não escolhe a arte, a arte captura o artista.
Repensando os "Sobrinhos"
Com isso, é importante refletirmos se os "sobrinhos" são realmente uma ameaça ou apenas uma parcela de profissionais iniciando sua carreira, sem saber como se valorizar ou precificar seus serviços. O copo está meio cheio ou meio vazio?
Preço baixo nem sempre significa baixa qualidade, e muitos "sobrinhos" não tiram seus clientes; eles acabam prejudicando os próprios consumidores. Aqueles que priorizam apenas a economia e o baixo custo não percebem que optar por um serviço de qualidade não é caro, é um investimento. Muitos dos que escolhem o preço baixo acabam, posteriormente, buscando outro profissional para refazer o mesmo trabalho. Se você se sente ameaçado por esses profissionais, talvez seja hora de revisar suas estratégias de marketing ou a qualidade dos seus serviços.
O Designer e o Mundo
"O designer ajuda a tornar o mundo mais bonito, um layout de cada vez." (BRELAZ, Leonardo)
Compartilhando Conhecimento
Não prenda informações, não tenha medo de compartilhar seu conhecimento, pois talento e feeling não se ensinam. Duas pessoas podem olhar pela mesma janela, mas enquanto uma observa a lama no chão, a outra admira o céu estrelado.
Não devemos permitir que sonhos sejam destruídos. Como afirmou Anton Ego, do filme Ratatouille: "Nem todos podem se tornar grandes artistas, mas um grande artista pode vir de qualquer lugar." O que importa é a oportunidade e o incentivo. Portanto, adote um "sobrinho" e ensine-o como deve agir. Foi difícil para você, mas não precisa ser difícil para ninguém. Em vez de criarmos adversários, vamos formar parceiros — se possível, claro.

“Um trabalho de qualidade não é aquele que agrada o cliente, mas aquele que convence até a mente treinada do criador.”(BRELAZ, Leonardo) | #SobrinhosSolutions.
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